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Desvendando a depressão pós-parto

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Compartilhado em nossa rede social em janeiro de 2017, o vídeo-documentário, produzido pela BBC Brasil, “O Estigma da Depressão Pós-Parto” traz o depoimento emocionado de uma mãe que enfrentou e superou o problema.

A grande repercussão da postagem, que gerou muitos comentários e opiniões diversas de nossos seguidores, nos fez voltar ao tema. Desta vez, resolvemos ouvir o que profissionais que acompanham de perto as mulheres durante a gestação e depois do nascimento do bebê têm a dizer.

Todos os especialistas entrevistados foram unânimes em destacar a importância de diferenciar o chamado “baby blues” da depressão pós-parto. Você sabe qual é a diferença?

Médica especialista em Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade Paulista de Medicina, atual Unifesp, a Dra. Maria Cecília Breim explica que “uma tristeza que não chega a ser uma depressão é o que os americanos denominam ‘baby blues’. Essa tristeza pode acontecer no pós-parto da grande maioria das mulheres, principalmente no primeiro filho. Ela tem a ver com as alterações hormonais, a queda abrupta de hormônios estrogênio e progesterona, e com a nova situação de, de repente, a mulher se ver mãe”.

“Ficar triste também faz parte. Ficar irritada também faz parte. Estar exausta e não aguentar mais ouvir o bebê chorar faz parte. Todo mundo passa por isso”.Dra. Maria Cecília Breim – obstetra e ginecologista

Imagem: Instituto Criança é Vida

Para o pediatra do Ambulatório de Especialidades em Pediatria do Hospital Sírio Libanês, consultor científico e formador no Instituto Criança é Vida, o Dr. Francisco Frederico Neto, uma depressão pós-parto verdadeira é muito rara. “O que temos, e com frequência, é o chamado ‘blues’ ou tristeza materna, que é um estado de certa melancolia, tristeza e dúvidas sobre competência, que cerca de 70% das mulheres sentem, mas é transitório e costuma sumir com 3 a 4 semanas de vida do bebê”, explica o médico.

O “blues” pós-parto é um fenômeno fisiológico, segundo o Dr. Daniel Klotzel, obstetra e ginecologista formado pela Escola Paulista de Medicina. O médico afirma que a sensação de vazio que a mulher sente após o parto, já que não carrega mais um bebê em perfeita harmonia dentro dela, e as alterações hormonais, cujos efeitos podem durar alguns dias ou semanas, são fatores que podem levar a essa tristeza no pós-parto.

Diante do turbilhão de mudanças que a chegada de um bebê é capaz de causar na vida da mulher, agora mãe, é esperado, portanto, que ela encontre mesmo muitas dificuldades e que sinta essa tristeza. Para alívio de muitas mães, a psicóloga formada pela PUC e psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Anna Mehoudar, afirma que isso não deve ser motivo de preocupação ou sentimento de culpa.

“Parece que a maternidade anda de braços dados com a culpa e a gente precisa desfazer um pouco essa ideia”.
Anna Mehoudar – psicóloga e psicanalista

Autora do livro “Gravidez e cuidados com o bebê: um manual para pais e profissionais”, da Editora Sumus, Anna Mehoudar afirma que oito em cada dez mulheres vivem o chamado de ‘blues’ pós-parto ou tristeza materna. “É estranho uma mulher que em algum momento não chore junto com o bebê. Ela vai chorar e o que eu posso dizer para essa mãe é que que ela não precisa se preocupar com esse choro, porque essa é a linguagem do bebê. É assim que eles se comunicam”, tranquiliza a psicóloga.

Segundo a psiquiatra, Dra. Tânia Bitancourt, do Centro de Atenção Psicossocial II – Adulto (CAPS II – Adulto), de Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo, a idealização da maternidade por parte da sociedade pode contribuir para que a mulher não se permita estar triste no pós-parto. “Ninguém olha para as perdas envolvidas na maternidade. Em todos os períodos de transformações e mudanças existem ganhos e perdas. Neste caso, existem as perdas da individualidade, do tempo pessoal, das noites bem dormidas. A maternidade é um momento de muito prazer e alegria, mas também de muitas dificuldades”, alerta a médica.

Imagem: Instituto Criança é Vida

Há mais de 30 anos na área da obstetrícia, a Dra. Maria Cecília Breim faz coro a esta afirmação. “Todo mundo fica deslumbrado com o parto humanizado e ninguém fala que o pós-parto é difícil, que nesse período a mulher dorme pouco, amamenta a cada duas ou três horas, às vezes não tem nem tempo de comer direito. O foco fica muito no parto e na beleza idealizada da maternidade e não se vê que a parte concreta é difícil mesmo. Acho que as pessoas não estão preparadas para a maternidade”, opina.

“É esperado que uma mulher, depois de dar à luz, independentemente do número de gravidez que ela já tenha, sinta insegurança em cuidar do bebê que depende exclusivamente dela, principalmente no que se refere à nutrição e ao afeto”
Dr. Daniel Klotzel – obstetra e ginecologista

Imagem: Instituto Criança é Vida

Em sua prática clínica, a psiquiatra Tânia Bitancourt, formada há 35 anos pela Unifesp e com residência em Psiquiatria pelo Hospital do Servidor Público Estadual, costuma acolher que os sentimentos, as dúvidas e os pensamentos das mulheres não são tão absurdos assim. “É preciso entender que, de fato, a maternidade envolve uma mudança enorme na vida, que parte das dúvidas ou dos pensamentos que ela própria já rotula como anormais e sem cabimento, não significam que ela não queira a criança ou que não venha a ser uma boa mãe”, completa.

O fantasma da depressão

Diferentemente do “baby blues”, condição esperada diante da maternidade, em especial no primeiro filho, nos casos de depressão há uma mudança de comportamento mais acentuada, segundo a psiquiatra Tânia Bitancourt. “A pessoa não era daquele jeito e passa a ser. A própria mulher afetada se dá conta de que não está bem e é frequente que ela mesma peça ajuda”, conta a médica.

Medo de ficar sozinha, medo do próprio comportamento e do próprio pensamento, abandono das atividades pessoais como o trabalho e ideação suicida são alguns sinais da depressão, segundo a psiquiatra. “São situações em que a pessoa não dá conta do próprio cotidiano. A depressão não começa necessariamente logo após o parto. Ela pode acontecer dois ou três meses depois. A apresentação da doença, portanto, é bem diversa”, explica a especialista.

A Dra. Tânia afirma ainda que não há como não identificar os casos graves. “A pessoa fica transtornada, sem dormir, alucina, fala coisas sem sentido. É uma mudança de comportamento que não tem como passar desapercebida”, explica.

Segundo a obstetra e ginecologista Dra. Maria Cecília Breim, que tem 35 anos de prática clínica, tanto pelo tempo de duração como pela intensidade dos sintomas é possível detectar se a tristeza é uma alteração causada pelas alterações hormonais. “Casos assim, em função da queda hormonal, em geral são mais leves e passageiros. Surgem na primeira semana ou nos primeiros dez dias do pós-parto e depois a pessoa vai saindo disso. Se é uma coisa muito intensa e prolongada não é mais hormonal e há algum outro componente envolvido e que precisa ser investigado”, alerta.

A depressão pós-parto atinge 15% das mulheres em todo o mundo e um terço das mães que utilizam o sistema público de saúde de São Paulo, segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – USP.

Imagem: Instituto Criança é Vida

Mulheres que já têm um quadro depressivo e fazem tratamento a longo prazo devem avaliar, junto com seus médicos, se a medicação deve ser mantida ou interrompida durante a gravidez. A decisão vai depender da conduta de cada profissional e da opção da paciente. “Na minha prática, eu procuro sempre retirar a medicação nos três primeiros meses de gestação, que é quando ocorre a formação do embrião”, afirma a Dra. Tânia Bitancourt.

Casos de depressão pós-parto são, portanto, quadros considerados graves, que exigem a intervenção médica, medicação psiquiátrica, além da presença de outro adulto responsável pelos cuidados com o bebê enquanto a mãe se recupera.

Possíveis causas

A psiquiatra Tânia Bitancourt afirma que em qualquer doença mental a causa é multifatorial. “Você tem uma somatória de situações genéticas com situações ambientais, com o fator social e econômico, com estresse psicológico. Um pouco de tudo isso se soma para a doença se manifestar. Não há uma causa única”, explica.

O excesso de exigência do filho, do marido, da casa que precisa estar em ordem, o corpo que ainda não está como antes são fatores que, segundo a psicóloga Anna Mehoudar, também podem contribuir para o desenvolvimento de uma depressão pós-parto. “A depressão, para se instalar, necessita de todos esses fatores e mais um que é a própria história de vida da mulher. Se ela puder se dar conta de todas essas coisas, a depressão pós-parto tende a ter menos espaço”, destaca.

O Dr. Daniel Klotzel, obstetra acostumado a acompanhar mulheres da gestação ao pós-parto, também aponta situações que, além da predisposição de cada uma, podem atuar como desencadeantes de uma depressão. “Mulheres que se sentem sobrecarregadas, com dificuldades de amamentação, inseguras, sozinhas, abandonadas, ou que o marido e a família participam pouco, com dificuldades financeiras ou profissionais devem despertar a atenção dos profissionais de saúde desde o pré-natal”, alerta.

Acolhimento X Solidão

Em vídeo publicado na sua página no Facebook, o pediatra Daniel Becker ressalta a importância de colocar em pauta o assunto do isolamento vivido pela mulher contemporânea urbana durante o pós-parto. Diante da ausência da chamada rede de apoio, geralmente formada por familiares e amigos, o médico resgata uma frase que simboliza bem o grau de exigência que um bebê pode representar: “É preciso de uma aldeia para cuidar de uma criança”. O vídeo completo você assiste em Pediatra Integral.

Para a psicóloga Anna Mehoudar, o empobrecimento da transmissão oral, em todas as classes sociais, explica em parte o fenômeno do isolamento. “Rapidamente a mulher sai de casa, vai trabalhar, vai estudar e assim acaba convivendo pouco com outras mulheres na mesma situação. O marido está trabalhando, a mãe mora em outra cidade, as amigas trabalham. Ela fica sem rede de apoio. E a mulher não pode viver o pós-parto sozinha. Ela precisa de uma rede de apoio”, alerta.

Imagem: Instituto Criança é Vida

A Dra. Maria Cecília Breim, ginecologista e obstetra, concorda que a maternidade pode ser uma experiência muito solitária, principalmente se a mulher não tem muito apoio da família. “Atualmente quase todas as avós trabalham e não conseguem mais dar aquela atenção que havia no passado, quando as mães cuidavam das filhas que estavam tendo filho. As pessoas têm que se virar”, completa.

Para quebrar esse isolamento, os profissionais de saúde têm um papel fundamental. O consultório do obstetra, do pediatra ou os plantões de aleitamento conduzidos por enfermeiras podem ser espaços importantes para que a mulher consiga, não só esclarecer suas dúvidas, como também compartilhar seus sentimentos.

Imagem: Instituto Criança é Vida

A psicóloga e psicanalista Anna Mehourdar defende que “a principal função do profissional é a de fortalecer aquilo que ela está fazendo corretamente”. Para ela, o grande trabalho a ser feito durante o pós-parto é com os pediatras. “É preciso fortalecer o protagonismo da mulher, encorajá-la a pedir ajuda e legitimar o fato de que ela vai errar, mas que tem a possibilidade de acertar”, diz.

Médico ginecologista e obstetra desde 1980, o Dr. Daniel Klotzel defende que toda consulta, seja no pré-natal ou no pós-parto, envolva sempre muita conversa. “Conversamos sobre tudo. Desde as sensações físicas até os sentimentos. Da alimentação ao relacionamento em família, com o marido, eventualmente com os filhos, no trabalho. Abordar os sentimentos é muito importante”, conta.

Segundo o médico, no pré-natal já é possível identificar questões que podem vir a afligir a mulher futuramente e ficar atendo a essas possíveis demandas no pós-parto. Entre elas estão a insegurança em relação ao cuidado com o bebê, as dificuldades na administração das tarefas da casa, a ausência de ajuda e até a presença de pessoas mais velhas que podem tanto ajudar quanto atrapalhar.

Para a psiquiatra Tânia Bitancourt “nos casos mais leves de depressão, nos quais a própria mãe esconde os sintomas, é importante que o profissional de saúde tenha tato para perceber e lidar com o problema”. A médica defende que nos atendimentos feitos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), de orientação sobre amamentação e cuidados do bebê, deva existir uma abordagem de rotina que permita à mulher falar sobre a depressão pós-parto.

Além desses espaços, o médico Daniel Klotzel indica os grupos de grávidas e de casais que fazem preparação para o parto como ambientes em que a mulher, e também o homem, possam colocar suas questões, dúvidas e problemas durante a gestação.

Segundo o Dr. Daniel, no caso dos homens, geralmente aparecem questões ligadas ao peso de ter que desempenhar socialmente o papel de provedor. “Falamos muito sobre a depressão e na melancolia pós-parto feminina , mas o homem também passa por problemas, embora com características diferentes”, destaca o especialista.

Imagem: Instituto Criança é Vida

O ginecologista afirma que “tanto o homem quanto a mulher podem sentir coisas ruins desde o começo da gravidez”. É a chamada “ambivalência do primeiro trimestre” quando, mesmo diante de uma gravidez planejada, surgem as dúvidas sobre o futuro, sobre a competência para lidar com a maternidade e a paternidade, o medo de perder o relacionamento sexual e de ver a vida do casal transformada em um pai e uma mãe cuidando de um bebê.

Imagem: Instituto Criança é Vida

Sentimento de ser abandonado e falta de interesse da mulher em relação a eles após a maternidade são queixas frequentes dos homens, segundo a psicanalista Anna Mehoudar. A dica para o casal passar junto por esse momento é, segundo ela, entender que, assim como a maternidade e a paternidade são situações novas para ambos, “a volta à vida sexual é também uma construção, é como se fosse um novo namoro, um novo casamento”, completa.

Imagem: Instituto Criança é Vida